TDAH: compreensão, diagnóstico e caminhos de cuidado
- Anelise Möller

- 27 de jan.
- 5 min de leitura
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade que interferem no funcionamento diário. Esses sintomas acompanham a pessoa ao longo da vida e impactam áreas importantes como o desempenho escolar, profissional, social e emocional.
O neuropediatra Dr. Raphael Rangel explica que o TDAH envolve diferenças reais no funcionamento e na organização do cérebro. De forma geral, há menor ativação em áreas como o córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento, organização, tomada de decisão e autorregulação. Não se trata de falta de esforço, preguiça ou desinteresse, mas de uma condição neurobiológica.
Genética e ambiente: uma via de mão dupla
A ciência reconhece um forte fator hereditário no TDAH, envolvendo genes relacionados à dopamina e à noradrenalina. No entanto, a genética não atua isoladamente. Fatores ambientais — como qualidade do sono, alimentação, estímulos, contexto familiar e escolar — podem atenuar ou intensificar os sintomas ao longo da vida.
TDAH na infância e o desafio do diagnóstico em meninas
Quando identificado precocemente, o TDAH na infância permite intervenções adequadas que reduzem prejuízos emocionais, acadêmicos e sociais, favorecendo um desenvolvimento mais saudável e melhor qualidade de vida no longo prazo.
Apesar disso, o transtorno frequentemente passa despercebido em meninas. Isso ocorre porque os sintomas tendem a ser menos externalizados: em vez de agitação física marcante, é comum haver mais desatenção, devaneio, timidez e dificuldades internas, fazendo com que sejam vistas apenas como “distraídas” ou “desorganizadas”. Além disso, expectativas sociais de comportamento mais contido podem mascarar sinais importantes, levando a diagnósticos tardios ou equivocados.
Personagens como o Menino Maluquinho, de Ziraldo, ajudam a ilustrar esse contraste. Suas características — agitação, impulsividade e comportamento expansivo — tornam os sinais mais visíveis e socialmente reconhecidos como possíveis indicadores de TDAH, algo que tende a facilitar a suspeita e o encaminhamento clínico. Em contrapartida, muitas meninas com TDAH não “fazem barulho”, não interrompem a aula nem desafiam regras de forma explícita.
Estilo de vida atual e diagnósticos equivocados
Vivemos em um contexto de hiperestímulo constante, excesso de telas, notificações, multitarefas e alta cobrança por produtividade. Esse cenário pode gerar sintomas semelhantes ao TDAH, como:
· dificuldade de concentração;
· cansaço mental;
· esquecimentos frequentes;
· sensação de dispersão constante.
Por isso, nem toda dificuldade de atenção é TDAH. Um diagnóstico responsável deve considerar a história desde a infância, a presença de prejuízos funcionais em diferentes áreas da vida e uma avaliação clínica criteriosa.
Como reforça a Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva, o risco atual não é apenas o subdiagnóstico, mas também o superdiagnóstico, quando ansiedade, depressão, privação de sono, estresse crônico ou burnout são confundidos com TDAH.
Potencialidades e pontos de atenção
Potencialidades: Pessoas com TDAH frequentemente apresentam altos níveis de criatividade, intuição e pensamento fora do padrão. Quando envolvidas em atividades que despertam interesse genuíno, podem vivenciar períodos de hiperfoco, com grande capacidade de concentração e produtividade, destacando-se em áreas alinhadas às suas habilidades.
Tendência a comportamentos compulsivos e vícios: Também existe maior vulnerabilidade a comportamentos impulsivos e compulsivos, como excessos alimentares ou compras compulsivas, além de maior risco para dependências (jogos, álcool, drogas, açúcar, entre outros). Esse é um ponto que exige atenção, prevenção e acompanhamento adequados.
Critérios diagnósticos (DSM-5)
Para um diagnóstico seguro, utilizam-se critérios estruturados que avaliam três pilares principais:
· Desatenção: dificuldade de foco, organização e manutenção da atenção;
· Impulsividade: ações precipitadas, baixa tolerância à frustração, tendência a compulsões;
· Hiperatividade: mente com pensamentos acelerados e dificuldade de desligar. Em alguns casos, também se manifesta como inquietude física com necessidade constante de movimento.
Para confirmação diagnóstica, os sintomas devem ter surgido antes dos 12 anos, persistir por mais de seis meses e causar prejuízos em pelo menos dois contextos (como casa e escola ou trabalho).
Uma visão integrativa: nutrição e suplementação
A abordagem integrativa considera que o equilíbrio nutricional é fundamental para a saúde cerebral. O Dr. Victor Sorrentino destaca que deficiências nutricionais, especialmente em períodos críticos como gestação e infância, podem influenciar o neurodesenvolvimento.
Sob orientação médica, alguns suplementos podem atuar como coadjuvantes no tratamento:
· Vitamina D: importante para o desenvolvimento neurológico;
· Ômega-3: auxilia na atenção e na estabilidade emocional;
· Complexo B, Zinco e Magnésio: essenciais para a regulação de neurotransmissores e para a chamada calma neural.
Importante: Suplementos não substituem tratamento clínico ou medicamentoso, mas podem potencializar os resultados quando bem indicados.
Medicação: quando e como pode ajudar
O tratamento medicamentoso não é obrigatório em todos os casos, mas pode ser um grande aliado quando bem indicado. Os medicamentos mais utilizados são os psicoestimulantes, que atuam nos sistemas de dopamina e noradrenalina.
De forma geral, podem ajudar a:
· melhorar o foco e a sustentação da atenção;
· reduzir impulsividade;
· diminuir a sobrecarga mental;
· facilitar a aplicação das estratégias terapêuticas.
Como enfatiza o Dr. Thiago Castro, a medicação não cria habilidades, mas abre espaço cognitivo para que a pessoa consiga desenvolver novas estratégias comportamentais e emocionais.
A importância da psicoterapia no TDAH
O TDAH não impacta apenas a atenção. Ele afeta também organização e planejamento; gestão do tempo; controle emocional e impulsividade; autoestima e identidade; relações interpessoais e desempenho acadêmico/profissional.
Muitos pacientes chegam à psicoterapia após anos de críticas, fracassos repetidos e autocrítica intensa, o que favorece quadros associados como ansiedade, depressão e procrastinação crônica. A psicoterapia atua diretamente nesses pontos.
Como a TCC e a ACT podem ajudar
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) são abordagens eficazes no manejo do TDAH. Na prática, ajudam a:
· compreender o TDAH sem culpa ou rótulos negativos;
· lidar melhor com pensamentos autocríticos;
· desenvolver estratégias de organização e rotina;
· melhorar a regulação emocional e a impulsividade;
· reduzir ansiedade, estresse e comportamentos de evitação;
· construir uma vida mais coerente com valores e objetivos pessoais.
O foco não é eliminar o TDAH, mas aprender a viver melhor com ele, fortalecendo potencialidades, autonomia e qualidade de vida.
Considerações finais
O TDAH não define quem a pessoa é, mas influencia a forma como ela se relaciona com o mundo. Com diagnóstico responsável, tratamento adequado e acompanhamento psicológico, é possível transformar sofrimento em autoconhecimento e estratégias funcionais.
Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de cuidado consigo mesmo.
Dicas de leitura
Para quem deseja se aprofundar no tema, seguem três obras de linguagem acessível:
1. Mentes Inquietas — TDAH: desatenção, hiperatividade e impulsividade, de Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva.
2. Simplificando o TDAH — desafios e caminhos de sucesso para pais, profissionais e curiosos do TDAH, de Dr. Raphael Rangel.
3. TDAH Descomplicado: tudo que os pais devem saber para ajudar seus filhos, de Yuri Maia.






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